Essa é a história da astronauta brasileira que trabalha na NASA há 20 anos

19/05/17 às 14h47

Uma cientista brasileira trabalha na Nasa há 20 anos e já ajudou a descobrir várias coisas. A astrofísica Duília Fernandes de Mello, de 53 anos, esteve presente quando a supernova 1997-D, uma explosão que representa o estágio final da evolução de uma estrela, foi descoberta e também quando as bolhas azuis, estrelas órfãs e sem galáxias, foram detectadas.

Atualmente, a cientista trabalha no programa telescópio Hubble. Além disso, ela é professora e vice-reitora da Universidade Católica de Washington (EUA). Recentemente a Universidade de Columbia (EUA) nomeou Duília como uma das 10 mulheres que mudam o Brasil.

Apesar da pesquisadora atuar fora do país de origem, Duília cresceu e estudou em solo brasileiro. Ela se graduou em astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde se formou em 1985,  fez doutorado em uma das mais concorridas e renomadas universidades do país, a Universidade de São Paulo (USP) e se tornou mestre pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE).

Para ela, o Brasil está evoluindo nos estudos de astronomia. Mas ainda avalia o atual número de astrônomos na Sociedade Astronômica Brasileira, atualmente 700, como bom. "Poderia ser ainda maior", comenta.

Supernova

A cientista foi a responsável pela descoberta da supernova 1997-D. Segundo ela, tudo aconteceu em janeiro de 1997 enquanto estava no Observatório Interamericano Cerro Tololo, no Chile, observando algumas imagens captadas pelo telescópio do Observatório Europeu do Sul (ESO). Nessa época Diúlia ainda não trabalhava na Nasa.

A descoberta aconteceu enquanto ela analisava estrelas da galáxia NGC1536 e percebeu que havia algo diferente no meio. Nesse momento a cientista conseguiu descobrir a supernova, uma estrela em seu estágio final. "Ela tinha explodido há 53 milhões de anos-luz", contou.

Ainda de acordo com a brasileira, tudo aconteceu de forma inesperada. "Fui simplesmente guiada pela minha curiosidade. Num campo com um conjunto de estrelas, vi que tinha uma a mais. Usei um instrumento em cima dessa estrela e percebi que ela tinha acabado de explodir por conta das propriedades da composição química", lembra.

A equipe que trabalhava com Diúlia enviou um telegrama para a União Astronômica Internacional (IAU) que informava detalhes sobre a supernova. "A 1997D é uma supernova peculiar, com 100 dias de formação, no máximo. Seu espectro contém uma variedade de linhas sobrepostas em vermelho".

Nesse mesmo ano a cientista começou a trabalhar na Nasa e também iniciou pós-doutorado no projeto do telescópio Hubble, utilizado pelo diretor Bob Williams, que descobriu pela primeira vez o campo profundo - trecho considerado ‘vazio’ do espaço que, na verdade, continha mais de 3 mil galáxias. Na ocasião, Williams conseguiu captar milhares de corpos celestes há 3,5 bilhões de anos do hemisfério norte e iniciava estudos para captar no hemisfério sul.

Diúlia decidiu então que queria participar do projeto supervisionado por Bob. "Mandei um e-mail para o Williams e falei: ‘por ser brasileira, ou seja, única representante do hemisfério sul aqui na Nasa, queria muito participar desse projeto’. Ele só respondeu: ‘Bem-vinda’", relembra ela.

Os cientistas precisaram potencializar as câmaras dos telescópios e conseguiram observar galáxias a uma distância de 12 bilhões de anos-luz. "As cores do hemisfério sul são diferentes, porque revelam propriedades diferentes", explicou Diúlia. E a partir dessa análise os especialistas conseguiram encontrar a existência de um objeto quase estelar que emite 1.000 vezes mais luz que uma galáxia inteira.

Bolhas Azuis

A descoberta da existência das bolhas azuis aconteceu em 2008. Na época, ela já era casada com um astrônomo e trabalhava no Observatório Espacial Onsala, na Suécia, onde permaneceu até 2002, quando recebeu um convite da Nasa para participar de um projeto onde iria analisar imagens ultravioleta extraídas por três telescópios (incluindo o Hubble) de campos ultraprofundos, o GOODS (sigla em inglês de Grande Observatório de Origens de Pesquisas Profundas).

Essas análises poderiam permitir fazer estatísticas de supernovas e explosões de estrelas. Além disso, poderia ajudar a provar a teoria de que o universo está constantemente em expansão. Essa experiência de Diúlia resultou na descoberta de "aglomerados azuis brilhantes de estrelas", também chamadas de bolhas azuis. Mas isso só foi possível com a ajuda de Claudia Mendes de Oliveira, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP).

"Há regiões pequenininhas na cauda de galáxias em colisão que geram um efeito-maré, em que a gravidade faz com que a galáxia fique meio distorcida. Nessa distorção de gás, vê-se um orfanato de estrelas jovens. Elas são as bolhas azuis", explicou a astronauta.

Essa descoberta fez com que a ideia que cientistas tinham sobre as estrelas se formarem apenas em nuvens densas de materiais dentro das galáxias estava errada. Na época, a pesquisadora informou que o descobrimento poderia "ajudar a descobrir como se formam galáxias".

Expectativas para o futuro

A cientista brasileira já conquistou muita coisa, porém, segundo ela, ainda sonha ir mais alto. Diúlia ainda fala sobre a importância das mulheres se interessarem por essa área, pois até hoje esse é um dos setores onde os homens são predominantes. "A mulher não faz ciência igual ao homem, assim como a mulher não é igual ao homem. Costumo dizer: ‘siga o seu sonho, mas tenha o talento para isso’", diz.

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Via   Vix  
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